TRADICAO

Guardioes da Vinha do Pico

Maria João Dias, Jornalista  ·  15 Nov 2024  ·  7 min de leitura

Há vinhas que crescem sós. No Pico, as vinhas precisam de pessoas. As famílias que há gerações cultivam a vinha heroica não são apenas produtores — são guardiões de um saber que não se encontra em nenhum manual e que se perde se não for transmitido.

A Transmissao do Saber

A vindima no Pico não tem manual de instruções. O que existe são conversas entre pai e filho nas curraletas, ao entardecer, quando o atlântico já esfriou e as uvas guardam ainda o calor do dia. É nesse momento que se aprende a escolher o cacho certo, a sentir o ponto da maturação pela cor e pelo peso.

António Soares aprendeu com o pai, que aprendeu com o avô. Três gerações nas mesmas parcelas de basalto, com os mesmos gestos precisos. A vinha não muda. Quem muda somos nós — mas depressa ela nos molda de volta, diz.

“A vinha não muda. Quem muda somos nós — mas depressa ela nos molda de volta.”

António Soares — três gerações na vinha do Pico.

O Legado que Fica

O maior medo dos viticultores do Pico não é o granizo nem a praga. É o silêncio. O silêncio de uma quinta onde ninguém quis ficar, onde os jovens foram para a cidade e as videiras ficaram sem mãos que as conhecessem.

Por isso, nas Quintas do Pico, a transmissão do saber é tão importante como a qualidade do vinho. Cada prova, cada visita à vinha, cada vindima partilhada é um acto de resistência — contra o esquecimento, contra a uniformidade, contra a ideia de que o bom vinho não precisa de memória.

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