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Ler artigoÀ MESA DO PICO
António Soares · 5 de junho de 2026 · 5 min de leitura
Há ilhas que se provam antes de se verem. No Pico, o sabor chega pela pedra — pela lava que aquece as vinhas e pelos pastos altos onde o gado cresce entre nevoeiros e maresia. Deste chão vulcânico nasce um dos tesouros menos contados da ilha, o Queijo do Pico, e poucos prazeres se comparam ao instante em que ele encontra, no copo, um Verdelho criado a poucos quilómetros de distância.
O Queijo do Pico é um queijo de pasta mole, amanteigado e de personalidade vincada, feito a partir de leite cru de vaca. A cor amarelada, o aroma intenso e o final ligeiramente picante guardam a memória dos pastos vulcânicos onde as manadas crescem, expostas ao sal do Atlântico e à humidade da montanha.
Curado durante algumas semanas, ganha uma casca fina e um interior cremoso que quase se espalha à temperatura ambiente. É um queijo que não pede pressa: serve-se à fatia generosa, sobre pão de trigo rústico, e deixa-se respirar antes de chegar à mesa — tal como o vinho que o há de acompanhar.
“No Pico, o queijo e o vinho partilham o mesmo chão de lava — e é por isso que se entendem tão bem.”
A intensidade do Queijo do Pico pede vinhos de carácter. O Verdelho do Pico — mineral, salino e seco — corta a cremosidade do queijo e prolonga-lhe o final picante, num equilíbrio que parece desenhado pela própria ilha. Para quem procura o contraste, um licoroso do Pico, doce e quente, abraça a intensidade salgada do queijo e transforma a prova numa pequena celebração.
Da próxima vez que visitar a quinta, peça uma tábua de Queijo do Pico ao lado dos nossos brancos vulcânicos. É a forma mais honesta de provar a ilha inteira numa só garfada — a lava, o mar e o tempo, reunidos no mesmo momento.
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