VINHA

Os Currais de Pedra Negra

Joaquim Silveira, Viticultor  ·  8 Out 2024  ·  5 min de leitura

No Pico, a paisagem não é apenas natural — é também construída. Os currais de pedra basáltica que dividem a vinha em pequenas parcelas são ao mesmo tempo abrigo, relógio solar e arquivo de quem aqui passou. Uma arquitectura nascida da necessidade, elevada à categoria de arte.

Uma Heranca de Pedra

Construídas ao longo de séculos, as muralhas de basalto negro protegiam as videiras dos ventos atlânticos, retinham o calor durante a noite e marcavam os limites entre famílias. Cada pedra colocada era um acto de fé no futuro.

Hoje, as curraletas do Pico são Património Mundial da UNESCO — reconhecendo não apenas o produto, mas o sistema humano que o torna possível: a simbiose entre o viticultor, a pedra e o mar.

“Quem olha para os muros vê pedras. Quem conhece o Pico vê gerações.”

Curraletas da vinha do Pico — Património Mundial da UNESCO, 2004.

O Futuro dos Currais

Manter as curraletas é trabalho de mãos, tempo e compromisso. Cada inverno, o vento e a chuva deslocam pedras. Cada primavera, os viticultores recolocam-nas — sem argamassa, apenas com a gravidade e o conhecimento acumulado de gerações.

Nas Quintas do Pico, o restauro das muralhas faz parte do calendário anual. Não por obrigação legal, mas por respeito a quem as ergueu e a quem as vai herdar.

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